Nunca parto inteiramente

Sobre "Nunca Parto Inteiramente",
Por helder moutinho

Adeus é uma palavra infinita, não tem tempo, e a sua realidade é efémera. Podemos dizer adeus e parecer que é para sempre, mas depois reencontramo-nos no dia seguinte.  Dizemos adeus á nossa infância, aos nossos amores, às nossas grandes amizades, aos momentos mais importantes das nossas vidas. 

 Mas regressamos sempre…. Dizemos adeus aos nossos entes queridos, mas dizemos também que eles não morrem porque ficam sempre naquele lugar do pensamento onde se reúnem todas as reações do ser humano. Aquelas que nos fazem sorrir e gritar de alegria, chorar e gritar de raiva ou de uma dor tão grande que não nos deixa conter as lágrimas. E depois, tudo o que isto nos transforma. Neste epicentro que atrai e acolhe todas as emoções que vamos guardando. O Coração… Aquele que nos prende a todos os momentos da nossa vida…

Letra

Nunca parto inteiramente,
Não me dou à despedida
As águas vão simplesmente
Presas à sua nascente
É do seu modo de vida 
 
Fica sempre qualquer coisa
Qualquer coisa por fazer
Às vezes quase lamento
Mas são coisas que eu invento
Com medo de te perder
 
Deixei um livro marcado
E um vaso de alecrim
Abri o meu cortinado
Fiz a cama de lavado
Para te lembrares de mim
 
Nunca parto inteiramente
Vivo de duas vontades:
Uma que vai na corrente,
A outra presa à nascente
Fica para ter saudades.
 
Letra: João Monge 

atrás dos meus cortinados

Sobre "atrás dos meus cortinados",
Por helder moutinho

Todos nós lutamos contra uma sociedade que nos cria e nos transforma, e por isso vivemos, cada um com a nossa condição. Quando temos um segredo, somos clandestinos, mas depois quando o revelamos também somos clandestinos.  A luta pela paz e pela liberdade não tem fim, nós sabemos. Na vida nunca nada tem fim… Mas tudo tem um começo!

 Eu gosto de ser livre para viver um amor clandestino. O amor começa sempre em segredo, depois vai-se revelando e revelando até ao infinito, até à imortalidade, mas sempre e sempre atrás dos meus cortinados…

Letra

Atrás dos meus cortinados
Estamos os dois condenados
Um ao outro a horas-mortas
Se é a deus que isto se deve
Ele lá sabe o que escreve
Direito por linhas tortas


Falam de nós, eu bem sei
Deste amor fora-da-lei
Sem destino nem altar
Somos a rosa colhida
No lado escuro da vida
Que só se dá ao luar

 

Não te sintas obrigado
A prometer que ao meu lado
Nunca mais te vais embora
Atrás dos meus cortinados
Estamos os dois obrigados
A ser imortais agora.

 
Letra: João Monge 

fado da herança​

Sobre "fado da herança",
Por helder moutinho

Um dia a minha mãe disse-me que estavas chateado comigo. Que tinhas desabafado com ela e que tinha sentido em ti uma grande tristeza. Isto pela forma como eu te andava a tratar, com desprezo, sem atenção, sem crença e a responder sempre com duas pedras na mão. Resolvi escrever-te uma carta. Achei que era a forma mais segura de ter a certeza que nada ficava por dizer. Eu não a tenho e já foi há pelo menos uns trinta anos. Lembro-me que acima de tudo dizia que ao contrário do que podias julgar, a minha revolta não era contra ti, mas sim contra a frustração com que me sentia perante o mundo nessa época. Sei que te disse que era contigo com quem mais disparatava porque tu eras o meu porto seguro, o meu bom exemplo e que ao contrário do desprezo, o que eu achava é que tu eras o meu herói e que se ás vezes perdia o juízo era porque me sentia frustrado de não ser tão bom como tu.

Nesse dia senti no teu olhar uma mistura entre a alegria, o orgulho e a compreensão. Mas nunca me disseste nada. Passámos à frente… Não havia mais nada para dizer. Aliás tu não eras de me mandar sentar numa cadeira… Esse não era o nosso código.

 As conversas de família eram acima de tudo à hora de jantar, e de preferência quando já tínhamos o estômago cheio. A mãe é que puxava sempre os assuntos ou era quem mais interferia enquanto tu ias ouvindo calmamente até ao cerne da questão. Depois ou interferias no final da conversa como se fosse para dar um parecer ou um aviso final. Outras vezes acabavas o jantar e saias ao Café e ao Bagacinho e depois quando regressavas lá sentado no sofá a fumar o teu cigarro, de olhos semicerrados por causa do fumo e a olhar para a televisão: oh Luísa chega aqui por favor… Aquela conversa com o teu filho sobre a escola de noite não me cheira assim lá muito bem. O Gajo está é a preparar-se para deixar de estudar. Olha bem para o que eu te estou a dizer. Depois não digas que eu não te avisei. Depois a olhar para mim: eu fiz uma coisa parecida, fui estudar e trabalhar ao mesmo tempo, mas isso era dantes. Será que tu vais conseguir fazer isso? 

 Na realidade a tua preocupação não eram os estudos. Era o futuro, uma profissão, uma arte ou alguma coisa que nos fizesse feliz. A nós principalmente.  E lá estavas tu mais uma vez de olhos semicerrados a olhar para a televisão e de cigarro na boca. Sempre a ouvir e a pensar na estratégia. Mas depois largavas o assunto e deixavas as coisas seguirem o seu rumo natural. Pensavas que eramos novos e que se alguma coisa acontecesse tu estavas cá para ajudar e para proteger. Tinhas trabalhado e estudado para nos poder dar tudo o que não tiveste.

 No entanto se tudo corresse bem eras a primeira pessoa a assumir o erro. Chegavas a comentar que pensavas que ia correr mal, mas que afinal foste surpreendido na positiva. Isso enchia-me a alma. Tinhas a inteligência de não querer ser mais teimoso, não usavas nunca qualquer tipo de tirania. Eu não sabia porquê, mas acreditavas muito nas nossas capacidades, mesmo quando corria mal parecia que sabias que tudo se iria resolver.

 As dicas não vinham nem de ditados nem de provérbios. Eram exatamente dicas… ora toma lá uma, ora toma lá outra. Ás vezes entravam já noutro contexto completamente descabido do assunto. Tipo: isto não tem nada a ver, mas… Eu encolhia os ombros e achava que não fazia muito sentido, ou pelo contexto ou pela situação que estávamos a viver. Mas elas apareciam dentro e fora dos assuntos. Umas vezes nem as entendia muito bem, outras nem achava que fizessem sentido e outras definitivamente não estava de acordo. No entanto não sei porquê, mas ficaram cá todas, uma a uma, guardadinhas como pequenos ficheiros temporários guardados mesmo lá no fundo do disco rígido à espera de serem usadas no momento certo.  

Os anos foram passando e os episódios foram surgindo… os desafios, as aflições, as reflexões. Os pequenos ficheiros abriram-se conforme as necessidades. Primeiro o instinto para a resolver como se não fosse a primeira vez. Depois a reflecção o entendimento e a razão…. Afinal tinhas razão.

Um dia a muitos poucos dias da tua partida chegas-te a mim – tinhas uma camisola branca de manca curta e uns calções de treino azuis – e disseste-me: Não tenhas medo que eu gosto muito de ti… achei que era a resposta à tal carta, e demos um abraço.

Hoje sou um homem forte, digno e integro. Grato e bom para com o próximo.

Ao disco rígido onde guardei todas as pequenas coisas que me foram chegando chamei-lhe saudade e ás pequenas coisas… a tua herança… a maior do mundo…

Letra

Deste-me o nome e a lua

A lua não tem morada

Alumia qualquer rua

Mas só a mim me foi dada

Não entendo onde tu estás

Nem porque chegaste ao fim

Não entendo onde tu estás

Mas sei que dormes em paz

Descansas dentro de mim

 

 

Já nasci com a saudade

Nada mais herdei de ti

Deste-me o nome e a idade

Da lua quando nasci

 

 

Não sei se há lugar no céu

À minha espera ao teu lado

Não sei se há lugar no céu

O lugar que deus me deu

Para viver é o Fado.

 
Letra: João Monge 

matas-me​

Sobre "Matas-me",
Por helder moutinho

Num bar qualquer, de uma rua qualquer, de um bairro qualquer de uma cidade antiga… entrei sem ter percebido muito bem ao que ia e onde ia. Fiquei preso. Podia até continuar a olhar para o resto da multidão, das coisas, dos pormenores, das gargalhadas, dos outros olhares, mas não, eram tudo pequenos ruídos de fundo, pequenas distrações, faziam parte do cenário e estava tudo certo. Mas era isso mesmo, um cenário vivo de um filme a preto e branco com a personagem principal que eras tu… a cores.

Depois só faltava mesmo aquela sensação de que passaria a fazer parte do filme e desta vez já eram dois personagens a cores num filme fantástico… a preto e branco.

Caminhámos pela rua várias horas. Falámos de tudo o que foi possível, sofregamente, sobre cada um de nós. Como se nos tivéssemos conhecido tão bem noutra vida, já não nos víssemos desde o dia da nossa morte e que já tivéssemos passado pelo menos todos os anos da nossa idade. Continuámos a caminhar e era como que as nossas almas quisessem uma coisa e a nossa carne outra. Era como se tivéssemos a certeza que tudo passaria a ser eterno entre nós e que a nossa separação não nos traria sofrimento porque era apenas geográfica. 

Numa casa qualquer, de uma rua qualquer, de um bairro qualquer de uma cidade antiga… pusemos a chave à porta e tivemos a sensação que aquela era a nossa casa. O nosso tempo era o nosso segredo… e partilhámos os nossos desejos, as nossas loucuras, a nossa ternura, o nosso medo e a nossa insensatez. Mais uma vez como se já nos tivéssemos conhecido e que já nos tivéssemos amado tanto que o amor agora já nem estava em causa. Esse já tinha sido vivido e estava resolvido e era melhor que assim estivesse. Agora éramos duas novas pessoas loucamente apaixonadas a descobrir os nossos novos corpos, os nossos novos desejos e sensações. E descobrimos, descobrimos, descobrimos, até ao amanhecer… Quando a manhã chegou afastámo-nos um do outro como se não nos fosse permitida a luz do dia. Como se a noite fosse o nosso sonho perfeito e o dia a nossa mais triste realidade. 

Num bar qualquer, ou numa casa qualquer de uma rua qualquer, de um bairro qualquer de uma cidade antiga… já sabíamos que o amor não iria acontecer… inventámos a nossa Paixão. Era uma vez… 

 

Letra

Há que sofrer
Com a tua despedida
Há que chorar
De alegria por te ver
O meu peito tem num canto
Duas rosas em pranto
O destino de uma vida
Que se esgota pra viver
 
Deixa-me só
Quero ficar só às escuras
Vai-te embora e deixa-me só
A pensar no que vivi
A saudade é o alento
De um coração ao relento
Quando tu não me procuras
Às escuras penso em ti
 
Se uma gaivota poisar
À beira desta janela
E disser que te viu passar
Mandarei dizer por ela
Que me dói a luz do dia
Sou a noite sem fim
Volto a chorar de alegria 
Quando voltares para mim
 
Matas-me de amor
Quando vens sem avisar
Matas-me de amor
Quando me tens sem perdão
Morremos um de cada vez
Sem voz nem lucidez
É o sangue a suplicar  
Que te mate de paixão
 
Letra: João Monge 

eSTRELA MÃE

Sobre "Estrela Mâe",
Por helder moutinho

Era uma vez Luísa…

Caí, rasguei a pele do joelho e a palma da mão direita…

Já nem me lembro que idade é que tinha, aí uns três ou quatro anos. Desatei num pranto enorme como se tivesse acabado de sofrer um grande acidente, como se fosse mesmo uma coisa muito grave. Na realidade havia muito sangue misturado com a areia da terra batida e com algumas ervas à mistura. Tipo um abstracto de Jackson Pollock.

Pronto filho, não foi nada, já passou, vai ficar tudo bem, a mãe está aqui, não chores, anda cá, não chores, vá lá: vamos já tratar disso tudo e tu vais ficar bom, pronto.

 Querem ver que também há Reiki de palavras? O que é certo é que assim que me vi nos braços da minha Mãe e a ouvi dizer aquelas palavras, a dor e os traumas começaram a desaparecer. Agora só faltava a parte da limpeza e tratamento da ferida. Depois, enfim, tudo se transformou numa grande aventura que ficava para contar ao meu Pai e aos meus avós no fim do dia. 

Caí, fraturei a cabeça em 18 centímetros, tive um traumatismo craniano e fiquei em coma durante uma semana…Tinha nove anos. Desta vez não desatei num pranto porque desmaiei logo com a queda. Só me lembro de estar em cima de um telhado com o meu irmão, a ver um ninho de pássaros, e um homem qualquer começou aos gritos, eu assustei-me e comecei a fugir. Acabei por cair do telhado e bati com a cabeça no chão. Assim que acordei do coma chamei por ela e ela estava lá.

Filho, eu estou aqui. Como estás? Sentes-te bem? É a Mãe, sou a tua Mãe, tu vais ficar bom, não te preocupes. Está tudo bem, não chores… 

Mas porque é que ela me está a dizer tantas vezes que é a minha Mãe? Eu sei que ela é a minha Mãe; sempre foi desde o dia em que nasci! Isto, no mínimo, é estranho. Mas o que terá acontecido? 

Estive umas três semanas em recuperação e ainda hoje me lembro de descer a rua da entrada da frente do hospital que ia dar a uma praça cheia de movimento, trânsito e comércio, mesmo no centro da cidade. Apanhámos um táxi e fomos para casa. Durante a viagem contou-me o que se tinha passado. Hoje tenho disto uma visão estranha, como se me lembrasse de tudo o que na realidade foi o que me contaram. 

Caí, perdi um dos meus melhores amigos…

Aquele que me ensinou que se os outros conseguem eu também tenho de conseguir. Aquele que sempre me provou que os homens não se medem aos palmos e que só choram quando querem e quando precisam… Era o meu Avô materno, o único que conheci. 

Custa muito filho eu sei. Nem sabes o quanto me custa a mim também. Mas isto vai passar. Não fiques triste, foi melhor assim. 

Caí e voltei a cair vezes sem conta, e em todas elas lá estava aquela figura sempre enorme, na alma, no espírito e na coragem. A derrubar todas as fronteiras, a lutar sempre até ao fim. Umas vezes perdeu, outras vezes ganhou. Nunca desistiu, não lho é permitido, provavelmente por Deus e pela vida. Será um castigo? Uma promessa? Ou uma dádiva que Deus lhe deu? Além de mim poucos a viram em acção, mas hoje somos o que somos e sabemos que só não nos levantamos se não quisermos viver… porque os problemas só foram inventados para serem resolvidos e por isso, no fim, tudo vai ficar bem. E tudo porque, ao cairmos, era uma vez Luísa…

 

Letra

Queria ser boa pessoa
Aquela que não magoa
Quando a vida não sorri
Pensei como tu te davas
Toda luz que irradiavas
E quis ser igual a ti
 
Não tenho o dom do perdão
E às vezes sei dizer não
Quando a vida quer morder
Mas aprendi ao teu lado
Que por trás de um triste fado
Há uma força de viver
 
Já roguei pragas à Lua
Quando a morte se insinua
Quando já tudo perdi
Tu sorris como em criança
Trazes no olhar a esperança
E quis ser igual a ti
 
Donde vem essa vontade
Esse manto de bondade
Que não encontro em ninguém
Todas as noites procuro
Uma estrela no céu escuro
A luz de uma estrela mãe
 
 
Letra: João Monge 

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